“Ladies and gentlemen: the director of the Mercury Theatre and star of these broadcasts, Orson Welles”: Assim começava, no dia 30 de Outubro de 1938, a dramatização original do clássico “A Guerra dos Mundos” da autoria de H.G. Wells, que ficaria para a história como um dos mais notáveis exemplos do triunfo dos “mass” média sobre as multidões e a prova indubitável da força dos meios de comunicação enquanto veículo de manipulação da informação e influência sobre a sociedade.
A adaptação radiofónica teve
início com trechos de música que eram interrompidos esporadicamente por uma
série de notícias “de última hora”, que relatavam a observação de “a huge flaming
object” que se aproximava de Gover’s Mill, em Nova Jersey. A minúcia do detalhe
e as declarações de supostas figuras públicas, tornaram a teatralização de Welles
de tal modo realista que, durante os 50 minutos de transmissão, milhões de
ouvintes ficaram plenamente convictos de que a Terra fora invadida por
marcianos. As barreiras entre o mundo real e a ficção desvaneciam-se e o histerismo
de uma multidão, “surda à razão”, alastrava-se por toda a nação.
Após o final do programa e
revelada a verdadeira face da história, criou-se uma onda de revolta entre os
crédulos ouvintes, vexados na sua dignidade e expostos ao ridículo, que obrigou
a pedidos de desculpa por parte da estação radiofónica e do próprio Orson
Welles. Ainda que estudos recentes venham
demonstrar que a dimensão do fenómeno não atingiu um patamar tão elevado, o
certo é que, ainda assim, induziu com notável eficácia uma “realidade fictícia”
em milhares de pessoas.
Podemos questionar-nos, como foi possível uma vivência tão real de tais inusitados acontecimentos. Para alcançarmos uma resposta, necessitamos de recuar no tempo e mergulhar no quadro do pós-guerra, marcado por um clima de tensão e ansiedade social, em que a rádio era a fonte privilegiada da notícia.
Este episódio não pode deixar de
causar-nos um sorriso, quando nos transportamos, com a nossa mentalidade e
valores de agora, para as circunstâncias de então. No entanto, a forma de compreensão
de uma notícia depende sempre do seu receptor, da sociedade em que se insere e
da sua época. Citando Adorno: “os mass media não são apenas a soma total de
acções que descrevem ou das mensagens que essas acções irradiam. Compõe-se
também de vários significados sobrepostos uns aos outros: todos contribuem para
o resultado” (Adorno, 1954).
A capacidade de manipular,
transformar opiniões através dos meios de comunicação de massa percorre o tempo
até a actualidade, apenas se adaptou aos parâmetros do nosso conhecimento e
estrutura mental, ou seja, ao presente. Tal como então, também hoje a televisão
nos hipnotiza, numa rotina diária, que nos molda e tolda as percepções.
“So
goodbye everybody, and remember the terrible lesson you learned tonight. That
grinning, glowing, globular invader of your living room is an inhabitant
of the pumpkin patch, and if your doorbell rings and nobody's there, that was
no Martian... it's Halloween” – Orson Welles.