Olhando
para a importância que o transporte ferroviário tinha e continua a ter no resto
da Europa, pergunto-me qual será o motivo do desinvestimento nas linhas de
caminho de ferro portuguesas. Chegam-nos notícias de linhas na eminência de
serem desativadas que somadas já contam 600 quilómetros de norte a sul. Mas se acreditamos
que este desinvestimento só surge em zonas rurais onde não se justifica manter
uma linha de comboio a funcionar, facilmente percebemos que não é esse o caso.
Para além de haver linhas desativadas com enorme potencial
turístico e interesse regional como acontece nas linhas do Corgo e do Tua, há
linhas usadas diariamente por milhares de pessoas que estão no limite em termos
de idade da infraestrutura e/ou das composições. Veja-se o recente acidente de
Alfarelos, perto de Coimbra e o descarrilamento de dois comboios na linha de
Cascais entre Algés e Caxias.
A
minha experiência como utilizador assíduo da linha de Cascais, não por escolha
minha mas por falta de alternativas, leva-me a concluir que o investimento que
se tem feito não passa de uma mera operação de cosmética. Renovam-se estações,
mas como não se gasta dinheiro em vigilância, acabam vandalizadas e com os
equipamentos inutilizados. Esta é a realidade da estação que frequento, S.
Pedro do Estoril. O investimento que urge fazer é a renovação de todo o caminho
de ferro para que corresponda ao formato padrão usado, por exemplo, na linha de
Sintra. Sem essa renovação, é impossível ligar a linha de Cascais à de Sintra e
acima de tudo encontrar carruagens novas que sejam compatíveis com a largura da
linha.
O
porquê do desinvestimento está à vista. Preferiu-se construir autoestradas a
torto e a direito, dar dinheiro a ganhar ao lobby da construção civil sob o
lema do 'investimento público que dinamiza a economia e gera emprego'.
Poder-se-ia argumentar que os governos sucessivos são esquizofrénicos porque
tanto querem sustentabilidade e investem em energias renováveis e nos fazem
pagar a conta, como nos transformam num dos países do mundo com maior densidade
de autoestradas por quilómetro quadrado, esquecendo por inteiro as ferrovias.
Mas nem isso é uma questão, porque afinal as autoestradas estão vazias e sem poluição e assim
se irão manter enquanto nos quiserem cobrar pelos erros de quem governa.
Os
governos encheram a boca com a palavra “estratégico”, mas escapam-lhes a todos
as “evidências”...