sábado, 23 de novembro de 2013

Caminhos de ferro enferrujado


A criação e expansão das redes de comunicações no Ocidente foram essenciais para a segunda revolução industrial que permitiu o desenvolvimento acelerado do século XX. Uma dessas redes foi a de caminhos de ferro, que cedo se veio a revelar estratégica para os estados, daí a sua nacionalização já que até aí estava entregue a privados.

Olhando para a importância que o transporte ferroviário tinha e continua a ter no resto da Europa, pergunto-me qual será o motivo do desinvestimento nas linhas de caminho de ferro portuguesas. Chegam-nos notícias de linhas na eminência de serem desativadas que somadas já contam 600 quilómetros de norte a sul. Mas se acreditamos que este desinvestimento só surge em zonas rurais onde não se justifica manter uma linha de comboio a funcionar, facilmente percebemos que não é esse o caso. Para além de haver linhas desativadas com enorme potencial turístico e interesse regional como acontece nas linhas do Corgo e do Tua, há linhas usadas diariamente por milhares de pessoas que estão no limite em termos de idade da infraestrutura e/ou das composições. Veja-se o recente acidente de Alfarelos, perto de Coimbra e o descarrilamento de dois comboios na linha de Cascais entre Algés e Caxias.

A minha experiência como utilizador assíduo da linha de Cascais, não por escolha minha mas por falta de alternativas, leva-me a concluir que o investimento que se tem feito não passa de uma mera operação de cosmética. Renovam-se estações, mas como não se gasta dinheiro em vigilância, acabam vandalizadas e com os equipamentos inutilizados. Esta é a realidade da estação que frequento, S. Pedro do Estoril. O investimento que urge fazer é a renovação de todo o caminho de ferro para que corresponda ao formato padrão usado, por exemplo, na linha de Sintra. Sem essa renovação, é impossível ligar a linha de Cascais à de Sintra e acima de tudo encontrar carruagens novas que sejam compatíveis com a largura da linha.

O porquê do desinvestimento está à vista. Preferiu-se construir autoestradas a torto e a direito, dar dinheiro a ganhar ao lobby da construção civil sob o lema do 'investimento público que dinamiza a economia e gera emprego'. Poder-se-ia argumentar que os governos sucessivos são esquizofrénicos porque tanto querem sustentabilidade e investem em energias renováveis e nos fazem pagar a conta, como nos transformam num dos países do mundo com maior densidade de autoestradas por quilómetro quadrado, esquecendo por inteiro as ferrovias. Mas nem isso é uma questão, porque afinal as autoestradas estão vazias e sem poluição e assim se irão manter enquanto nos quiserem cobrar pelos erros de quem governa.

Os governos encheram a boca com a palavra “estratégico”, mas escapam-lhes a todos as “evidências”...