Durante o séc. XX os anos 40 foram marcados mundialmente por
questões que anteriormente nunca tinham sido contestadas, desde os valores
sociais ao rompimento de “quadros de referencia” artística. Um período
conturbado que fica essencialmente marcado e definido pela segunda guerra
mundial, no entanto o tema que quero abordar envolve-a mas surge antes dela- A
dramatização em rádios- conta uma história de mais de 70 anos de idade, tendo
sido, com a ascensão tecnológica e as alterações sócias, quase esquecida. Durante o final da década de
40, o drama de rádio e as radionovelas estavam no seu auge, que aos poucos e
poucos veio a desvanecer com o surgimento e a expansão da televisão, e retornou
no tempo voltando a 1920 onde os programas de rádio formais eram desconhecidos,
e a maioria das transmissões à semelhança dos dias de hoje eram principalmente
de conversas e música, naturalmente em menor número de transmissões. Em meados dos anos 20, as maiores estações de
rádio começaram a desenvolver e emitir programas utilizando anunciantes e
narradores. E é desta forma que se foram desenvolvendo as radionovelas, sendo a
primeira emitida em 1927 com o seu próprio guião original, com narradores como
John Flynn e Virginia Moore.
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John Flynn e Virginia Moore em gravações de uma radionovela
No início
dos anos 30 a forma de comédia dramática começou a ganhar algum destaque, pois
adoptou uma linha de história fazendo com que, pelos potenciais resultados
demonstrados pela rádio, surgissem muitos patrocínios à mesma com intuito de receber algum tempo de
antena em troca. E finalmente entramos na década de 40, que reforcei no início
deste post porque de facto foi aqui que estes programas e rádio atingiram o seu
grande auge pois refletiam o envolvimento, principalmente, dos Estados Unidos
na II Guerra Mundial. Este feito fez com que o número de programas relacionados
com o interesse humano aumentasse, onde o número de horas semanais dedicadas ao
noticiário dobrasse, as raionovelas explodissem em número, provavelmente devido
à abundância de noticias da guerra. Com o cansaço de ouvir o destes, os
ouvintes preferiam optar por programas considerados de “fuga”, como o drama, a
comédia e o suspense. Por esse mesmo motivo, uma série dramática com mais
destaque até aos dias de hoje intitulava-se de Escape. Mais tarde, nos
primeiros anos de televisão, os patrocinadores eram difíceis de encontrar e era
muito caro criar um programa de raiz totalmente desconhecido, portanto as
formas que existiam eram de transferir os programas de sucesso da rádio
diretamente para a televisão. Vários
estudos foram feitos com base na influência das rádionovelas na vida dos
ouvintes. O principal e mais destacado foi feito pela austríaca Herta Herzog, com
base na Teoria dos Usos e Gratificações que reuniu 100 mulheres, e investigou
os seus hábitos de leitura e de escrita, uma discussão detalhada dos programas
favoritos, as atividades sociais, etc. Conseguindo concluir que surgiam em
todas elas três reações: permitiam a libertação das suas emoções- canalizavam
as suas emoções para a história, pois não o exprimiam na sua vida real, tinham
a oportunidade de chorar; permitia aos ouvintes o desejo de remodelação da sua
vida de “escravidão”- aceitavam a história como um substituto da realidade,
procuravam constantemente novas surpresas que na vida real não lhes eram dadas,
sentiam-se na pele do personagem, uma vida excitante e “emprestada”; e permitia
obter receitas para o ajustamento- contrariam a vida monótona fornecendo uma
sequência de eventos com continuidade, dão fórmulas de como agir em determinada
situações, proporcionando uma sensação de segurança, etc.
Herta Herzog (1910- 2010)
Embora as radionovelas tenham totalmente desaparecido da vida
do homem contemporâneo, este acaba por procurar as mesmas gratificações que se
obtinham através destes programas.
São exemplo disso as séries e novelas transmitidas pela
televisão, em que a base da história continuada é transferida da rádio para a
televisão, que pretende relatar um modelo de construção de sociedade que as
pessoas procuram também seguir. Os reality-shows são outro grande exemplo disso,
em que as pessoas que o veem procuram obter uma sensação de superioridade (é
até bastante frequente ouvir comentários que rebaixam os concorrentes
intelectualmente) e de controlo.
Vivemos numa época em que as redes sociais dominam a vida em
sociedade. Desta forma, é possível verificar que as pessoas procuram nestas
redes várias gratificações: algumas pessoas vivem uma vida praticamente
virtual; outras acabam por viver em demasia a vida dos outros, aceitando e
substituindo a sua vida social numa vertente “cara-a-cara”, pela vida virtual.
Estes exemplos são, no fundo, ferramentas que as pessoas
utilizam hoje em dia, como fuga à realidade, apropriando o seu uso, como um
hábito e rotina diária de entretenimento e alienação. Tal como nos anos 40, as
radionovelas eram uma forma de “não pensar” sobre o flagelo da Segunda Guerra
Mundial, hoje em dia, todas estas ferramentas são também utilizadas para que as
pessoas não sejam obrigadas a pensar a todo o momento por exemplo sobre a atual
crise económica que se vive, em particular, em Portugal, ou nos seus problemas
íntimos.
Radio Siemens- Anos 40