Desde cedo rodeámos
de significações o mundo à nossa volta, criámos uma paisagem semântica
desmitificando o desconhecido. Contudo, e apesar de a linguagem ser apenas um
instrumento, algo de fundamentalmente operativo, embriagámo-nos com esta casca
semântica de tal forma que nos esquecemos que somos simples animais. A nossa
relação com o nosso meio passou a ser mediado pela ferramenta que inicialmente
criámos e, ao invés de a moldarmos, somos moldados por ela.
À semelhança do que aconteceu com a
linguagem, continuamos a criar ferramentas que, ao tornarem-se mais eficazes, tornam-se
mediadores dos seus próprios criadores.
Na distopia de Huxley, Brave New World, as pessoas aprenderam a amar a sua subjugação num regime totalitário através de condicionamento e do uso de um narcótico – “soma”. Ao nosso redor,
encontramos um narcótico tão eficiente como “soma” na nossa paixão cega pelo aparato tecnológico que os gadgets proporcionam: samsung, apple,
tablets, iphones, ipads, smartphones, aliada a um apetite foraz pelo facebook,
google, e outras empresas que, em troca das nossas informações mais íntimas,
nos disponibilizam os seus serviços “gratuitamente”. Estaremos nós à beira de
uma distopia que tantos romances de ficção científica retrataram ao invés da
aparente utopia digital que nos rodeia?
"Stability,"
said the Controller, "stability. No civilization without social stability.
No social stability without individual stability. (Brave New World – referente ao uso de “soma”)