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segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Uma "porta" aberta para o Mundo



“What if it only took the opening of a door to be sent, in a second, from France to another large European city?”

A campanha publicitária “Europe. It’s Just Next Door” concebida pela SNCF e a TBWA\PARIS, em Setembro deste ano, privilegia seis cidades europeias enquanto veículo da sua mensagem cultural e publicitária: apresentar estes destinos turísticos como uma realidade acessível a dois passos de distância.

No centro de uma praça pública movimentada sobressai uma porta com cores vibrantes apenas com o nome de outra cidade inscrito, suscitando a curiosidade dos que passam. Quando abertas, estas portas interactivas transportam-nos, em tempo real, para outro mundo, para outra cidade, estabelecendo uma relação de interacção com o outro lado da tela, acessível instantaneamente, visando a contiguidade espacial entre o público e os protagonistas da “imagem”.

À semelhança da metáfora de Alberti que compara o quadro a “uma janela aberta para o mundo”, também estas telas interactivas funcionam como uma “porta” que revela um fragmento do mundo, contido numa moldura que delimita o espaço da imagem que contém uma nova realidade. Nela pode assistir-se a uma encenação de um Mimo, em Milão, a um passeio romântico pelo Lago de Genebra, ou a outras cenas urbanas. A campanha promove os elos multiculturais através da vivência em primeira mão e em directo do que se passa numa cidade “tão longe, mas tão perto”... A superfície plana ganha profundidade e a imagem serve como meio de comunicação e de representação do mundo, transportando-nos para fora de nós próprios, para aqueles destinos não imaginários mas reais, ao nosso alcance. 

Esta interessante acção dos média permite-nos “ver” através do mundo representado e faz-nos querer presenciá-lo. Porquê limitar a experiência do Mundo às bordas de uma tela? Afinal, a Europa está a uma "porta" de distância!

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

"War of the Worlds": Martians vs Media


http://www-tc.pbs.org/wgbh/americanexperience/media/uploads/special_features/photo_gallery/worlds_gallery_07.jpg 


















“Ladies and gentlemen: the director of the Mercury Theatre and star of these broadcasts, Orson Welles”: Assim começava, no dia 30 de Outubro de 1938, a dramatização original do clássico “A Guerra dos Mundos” da autoria de H.G. Wells,  que ficaria para a história como um dos mais notáveis exemplos do triunfo dos “mass” média sobre as multidões e a prova indubitável da força dos meios de comunicação enquanto veículo de manipulação da informação e influência sobre a sociedade.

A adaptação radiofónica teve início com trechos de música que eram interrompidos esporadicamente por uma série de notícias “de última hora”, que relatavam a observação de “a huge flaming object” que se aproximava de Gover’s Mill, em Nova Jersey. A minúcia do detalhe e as declarações de supostas figuras públicas, tornaram a teatralização de Welles de tal modo realista que, durante os 50 minutos de transmissão, milhões de ouvintes ficaram plenamente convictos de que a Terra fora invadida por marcianos. As barreiras entre o mundo real e a ficção desvaneciam-se e o histerismo de uma multidão, “surda à razão”, alastrava-se por toda a nação.

Após o final do programa e revelada a verdadeira face da história, criou-se uma onda de revolta entre os crédulos ouvintes, vexados na sua dignidade e expostos ao ridículo, que obrigou a pedidos de desculpa por parte da estação radiofónica e do próprio Orson Welles. Ainda que estudos recentes venham demonstrar que a dimensão do fenómeno não atingiu um patamar tão elevado, o certo é que, ainda assim, induziu com notável eficácia uma “realidade fictícia” em milhares de pessoas.


Podemos questionar-nos, como foi possível uma vivência tão real de tais inusitados acontecimentos. Para alcançarmos uma resposta, necessitamos de recuar no tempo e mergulhar no quadro do pós-guerra, marcado por um clima de tensão e ansiedade social, em que a rádio era a fonte privilegiada da notícia.

Este episódio não pode deixar de causar-nos um sorriso, quando nos transportamos, com a nossa mentalidade e valores de agora, para as circunstâncias de então. No entanto, a forma de compreensão de uma notícia depende sempre do seu receptor, da sociedade em que se insere e da sua época. Citando Adorno: “os mass media não são apenas a soma total de acções que descrevem ou das mensagens que essas acções irradiam. Compõe-se também de vários significados sobrepostos uns aos outros: todos contribuem para o resultado” (Adorno, 1954).

A capacidade de manipular, transformar opiniões através dos meios de comunicação de massa percorre o tempo até a actualidade, apenas se adaptou aos parâmetros do nosso conhecimento e estrutura mental, ou seja, ao presente. Tal como então, também hoje a televisão nos hipnotiza, numa rotina diária, que nos molda e tolda as percepções.

“So goodbye everybody, and remember the terrible lesson you learned tonight. That grinning, glowing, globular invader of your living room is an inhabitant of the pumpkin patch, and if your doorbell rings and nobody's there, that was no Martian... it's Halloween” – Orson Welles.