A imagem moderna, apesar de totalmente acessível e banal, é pouco
questionada quanto à sua função: existepara nos dar a ver algo, tornar visível
qualquer coisa não vista. E a imagem por via tecnológica tem sido usada para
permitir ao Homem ver/perceber coisas que não estão ao alcance do olho humano.
Por outro lado, é do
conhecimento de todos nós, influenciados por séries televisivas, que os
criminosos voltam ao local do crime. De facto, as autoridades acreditam que os
autores de determinados crimes, principalmente de incêndios, têm uma inclinação
para testemunhar a sua obra. Neste contexto, vi num artigo online que um grupo de
especialistas da Universidade de Notre Dame no ramo da biometria está a
desenvolver uma ferramenta de combate ao crime que pode ajudar as autoridades a
identificar indivíduos suspeitos nas cenas de crime.
Biometria (vida + medida) é o estudo estatístico das
características físicas ou comportamentais dos seres vivos, sendo, também,
forma de identificá-los unicamente. Hoje a biometria é usada na identificação
criminal e o princípio em que assenta é no de que
cada indivíduo é único e possuí características físicas e de comportamento
distintas.
Assim, no Departamento de Ciência da Computação e Engenharia da Universidade
de Notre Dame, a equipa focou-se numa ferramenta de reconhecimento facial
automático (Questionable Observer Detector - QuOD) que não precisa de coincidir
as pessoas com um banco de dados existente de identidades conhecidas. Em vez
disso, a ferramenta cria "faixas de rostos" para todos os indivíduos
que aparecem no vídeo e essas faixas são comparadas para determinar se algum
rosto se repete noutro vídeo. Então, um indivíduo é considerado suspeito
conforme a sua frequência nos vídeos.
Ao visualizar as imagens resultantes do processo, pareceu-me,
sem dúvida, um descendente das ideias iniciadas por Alphonse Bertillon e
Francis Galton, responsáveis por um novo significado dado ao conceito de
identidade, que se passou a confundir com a identificação. É inegável a relação
do QuOD ao registo das medidas antropométricas do rosto, mas desta vez, feito
de modo digital. A confluência de imagem e estatística está também aqui
presente, tal como no retrato compósito de Galton.
Human experience is
now more visual and visualized than ever before. (…) Visual culture does not depend on
pictures but on this modern tendency to picture or visualize existence. (Nicholas Mirzoeff, 1999)
A máquina como olho artificial do Homem, com possibilidades de
desenvolvimento das capacidades visuais infinitas, tem sido sinónimo de
segurança em detrimento da privacidade. As câmaras de filmar espalham-se pelas
ruas como uma praga, fazendo o papel do Homem: vigiam-nos e passam
despercebidas de forma inigualável. Na
verdade, tornou-se quase impossível existir sem ser filmado, sem fazer parte de
uma imagem. Até que ponto o homem prefere abdicar da sua privacidade e do seu
anonimato para se sentir seguro?
No entanto, é importante
dizer que o benefício social do QuOD será positivo, uma vez que a tecnologia
ajuda a identificar os indivíduos através da sua respectiva presença em
várias cenas de crime e não apenas por desconfiança, resultando num maior
sentido de justiça.
O QuOD é o sonho utópico tornado realidade de todas as
personalidades do séc.XIX ligadas à identificação criminal. É o olho mecânico
que detecta rostos suspeitos.
Link: http://www.dvice.com/archives/2012/09/10_crime_bustin.php
Link: http://www.dvice.com/archives/2012/09/10_crime_bustin.php