domingo, 22 de dezembro de 2013

O futuro da identificação criminal – privacidade ou segurança?


A imagem moderna, apesar de totalmente acessível e banal, é pouco questionada quanto à sua função: existepara nos dar a ver algo, tornar visível qualquer coisa não vista. E a imagem por via tecnológica tem sido usada para permitir ao Homem ver/perceber coisas que não estão ao alcance do olho humano.
 Por outro lado, é do conhecimento de todos nós, influenciados por séries televisivas, que os criminosos voltam ao local do crime. De facto, as autoridades acreditam que os autores de determinados crimes, principalmente de incêndios, têm uma inclinação para testemunhar a sua obra. Neste contexto, vi num artigo online que um grupo de especialistas da Universidade de Notre Dame no ramo da biometria está a desenvolver uma ferramenta de combate ao crime que pode ajudar as autoridades a identificar indivíduos suspeitos nas cenas de crime.
Biometria (vida + medida) é o estudo estatístico das características físicas ou comportamentais dos seres vivos, sendo, também, forma de identificá-los unicamente. Hoje a biometria é usada na identificação criminal e o princípio em que assenta é no de que cada indivíduo é único e possuí características físicas e de comportamento distintas.
Assim, no Departamento de Ciência da Computação e Engenharia da Universidade de Notre Dame, a equipa focou-se numa ferramenta de reconhecimento facial automático (Questionable Observer Detector - QuOD) que não precisa de coincidir as pessoas com um banco de dados existente de identidades conhecidas. Em vez disso, a ferramenta cria "faixas de rostos" para todos os indivíduos que aparecem no vídeo e essas faixas são comparadas para determinar se algum rosto se repete noutro vídeo. Então, um indivíduo é considerado suspeito conforme a sua frequência nos vídeos.
Ao visualizar as imagens resultantes do processo, pareceu-me, sem dúvida, um descendente das ideias iniciadas por Alphonse Bertillon e Francis Galton, responsáveis por um novo significado dado ao conceito de identidade, que se passou a confundir com a identificação. É inegável a relação do QuOD ao registo das medidas antropométricas do rosto, mas desta vez, feito de modo digital. A confluência de imagem e estatística está também aqui presente, tal como no retrato compósito de Galton.

Human experience is now more visual and visualized than ever before. (…) Visual culture does not depend on pictures but on this modern tendency to picture or visualize existence. (Nicholas Mirzoeff, 1999)

A máquina como olho artificial do Homem, com possibilidades de desenvolvimento das capacidades visuais infinitas, tem sido sinónimo de segurança em detrimento da privacidade. As câmaras de filmar espalham-se pelas ruas como uma praga, fazendo o papel do Homem: vigiam-nos e passam despercebidas de  forma inigualável. Na verdade, tornou-se quase impossível existir sem ser filmado, sem fazer parte de uma imagem. Até que ponto o homem prefere abdicar da sua privacidade e do seu anonimato para se sentir seguro?
No entanto, é  importante dizer que o benefício social do QuOD será positivo, uma vez que a tecnologia ajuda a identificar os indivíduos ​​através da sua respectiva presença em várias cenas de crime e não apenas por desconfiança, resultando num maior sentido de justiça.
O QuOD é o sonho utópico tornado realidade de todas as personalidades do séc.XIX ligadas à identificação criminal. É o olho mecânico que detecta rostos suspeitos.

Link: http://www.dvice.com/archives/2012/09/10_crime_bustin.php